Publiquei isto originalmente no Steam, então desconsiderem a apresentação citando Panzers em Company of Heroes. Apenas introdução para desconhecidos.

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Eis aqui um jogo que merece sua atenção. Life Is Strange é maravilhoso, é fantástico. Sinta-se completamente encantado.

Passei anos olhando com desinteresse para “Life is Strange”, afinal de contas, o que um “Skins” da vida poderia acrescentar a uma pessoa que gosta de gastar seu tempo no Steam explodindo Panzers? “Não é um jogo para mim”, pensava eu. Porém, certo dia, o destino me fez comprar o jogo inteiro (os cinco capítulos) por nove reais. “Barato. Vamos ver qual é”, pensei.

Assim, acabei conhecendo Max Caulfield, seus amigos, seus conhecidos, seus problemas e também desafios de vida. De cara, notei que o clichê de história adolescente americana estava ali, porém apenas alguns minutos frente à história e já foi possível perceber o quão diferente, profundo e belo este material é. Mais adiante, quando parte de todo panorama social de Max já era visível, meu nível de curiosidade elevou-se mais, realçado pelo instigante fato de Max descobrir que consegue manipular o tempo.

Surpreso, me deparei estando completamente apegado ao jogo e àquela trama maluca: Um Drama adolescente de uma garota que acaba de descobrir que é praticamente um super-herói, ou um Deus. Eu estava jogando um filme (sim, conheço os jogos da Telltale, mas este não é o ponto), porém, as escolhas eram sempre minhas, ou seja, se eu fizesse alguma bobagem, simplesmente voltava no tempo arrumava. Eu manipulava tudo a meu favor.

Aos poucos acabei conhecendo vários estudantes do círculo social da nossa protagonista: Warren e seu incrível talento de me fazer rir com referências a filmes (o de “THE WARRIORS” de 1979 no final do jogo é hilário); a vadia da Victoria (ok, viram o nível de imersão? Antes eu explodia Panzers, juro); a doce Kate (jesus, o que aconteceu comigo?); e mais um bocado de personagens carismáticos com personalidades fortes e muito diferentes um dos outros. Mas o que mais interessa aqui é a Chloe. Ah...Chloe.

A relação de Max e sua revoltada melhor amiga de infância de cabelo azul Chloe é de uma química espetacular. Aliás, poucas vezes lembro de ter visto em um jogo uma relação tão franca, orgânica, interessante e real. Confesso que em inúmeros momentos a perfeita dinâmica da dupla me lembrou, aliada ao excelente roteiro da Dontnod Entertainment, à profundidade e beleza, ao forte vínculo de relações de amizade complexas do audiovisual (neste caso, me referindo ao cinema e à séries), como por exemplo à Walter White e Jesse Pinkman, Frodo e Sam e também a Thelma e Louise (esta até mesmo citada de forma indireta durante o game).

Os acontecimentos da vida de Max, que aos poucos acaba percebendo as dificuldades de seu poder começam a afetar a todos em sua volta, e são estas relações o que Life Is Strange tem de mais poderoso. O que começa até mesmo bobinho acaba tomando uma proporção dramática imensa, sendo impressionante e devastador.

Outros pontos belíssimos do game estão em sua fotografia (pensando na novela digital como uma animação), esta que se aproveita de cores frias e quentes de forma magistral, realçando sempre o amarelado do por do sol incidindo sobre todos objetos e muitas vezes criando flares estupendos. As ilustrações à mão também compõe muito bem esse visual, dando um toque a mais à beleza de toda arte do jogo.

A dublagem original é excelente, concebendo um entrosamento perfeito entre cada personagem (em especial Hannah Telle interpretando Max e Ashly Burch interpretando Chloe), e o soundtrack indie então é mais que perfeito: músicas como “Mt. Washington - Local Natives”, “Obstacles – Syd Matters”, “Spanish Sahara – Foals”, “Mountains – Message to Bears”, a original “Max and Chloe” dos créditos e outras tão boas quanto são inseridas de um modo formidável, ao nível de em certas cenas alcançar pensamentos de “jesus, que coisa linda” e em outras simplesmente “obra prima”.

É lógico que, possuindo um sistema onde o jogador que interfere nos eventos futuros, o meu jogo pode tornar-se levemente diferente do jogo de outra pessoa. Mesmo assim, as situações e eventos do enredo são sempre muito bem escritos, independente do lado que a ótima história for. As escolhas morais são muito boas, e o ritmo desta história é agradável, possuindo paciência para contá-la e sabendo balancear acontecimentos pequenos com grandiosos. Tudo acontece de forma orgânica, nunca forçado. Os plot-twist são realmente criativos e inesperados.

O jogo possui alguns probleminhas como a falta de expressão e de sincronia labial de personagens em algumas cenas ou até mesmo suas bocas permanecerem completamente fechadas durante alguns diálogos, porém não é nada tão relevante, pelo menos para mim.

Chegando ao final, o sentimento de me despedir de verdadeiros amigos que acabei de conhecer e acompanhar em grandes aventuras tomou conta. Me despedir de Max e Chloe acabou lembrando o sentimento que tive durante o adeus à Gandalf e à Terra Média; lembrou do término da divertida aventura no tempo de Marty McFly; assim como foi ler a última, linda e pesada página de “Maus” de Art Spiegelman.... Sim, Life Is Strange é uma bela história, que além de possuir grande conexão com problemas reais atuais (e neste ponto cito problemas como o bullying, drogas, dentre outros problemas desta fase da vida), consegue atingir e conquistar o jogador.

Eu diria que, testemunhar este inteligente, dramático e divertido game foi uma surpresa extremamente agradável, e uma das melhores que tive sentado na frente de uma tela de computador. Life Is Strange é tocante, é humano.

Por fim, gostaria de dizer apenas mais duas coisas: Ao final, descobri que Max não é nenhum super-herói, e tampouco um Deus. Eu, personificado na personagem, acabei aprendendo isto junto a ela, e concluindo que “Com grandes poderes, vem grandes bullshits”. Nada é tão fácil assim, e a vida, além de estranha possui escolhas maduras e difíceis. A segunda coisa seria minha vontade de voltar no tempo e jogar tudo isto novamente (sem ter conhecimento de nada do jogo) apenas para me apaixonar e surpreender novamente por cada pedaço deste game.

Mas, caso eu pudesse voltar no tempo, garanto que no dilema da escolha para a minha frase inicial, eu continuaria com o que antes optei.

Eis aqui um jogo que merece sua atenção. Life Is Strange é maravilhoso, é fantástico. Sinta-se completamente encantado.

Algumas músicas do jogo: